Como é o Carnaval na Argentina – Murga, Comparsa e Desfiles

Veja como é o carnaval em terras argentinas e entenda a difícil história dessa celebração no país vizinho, e as diferenças da festa em Buenos Aires e no interior

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CARNAVAL: FESTA DEPOIS DO LUTO E PERSEGUIÇÕES

Nas grandes cidades argentinas, o Carnaval está em processo de ressurreição, após décadas de repressão e censura. O formato carnavalesco argentino, durante a primeira metade do século XX, foi mais similar aos festejos realizados na época na Europa, com muitos carros alegóricos e disfarces de pierrôs, colombinas e piratas.

O Carnaval recebeu seu primeiro duro golpe com a morte de Evita em 1952. Todos os dias, na mesma hora em que havia falecido, os locutores de rádio recordavam que naquele instante – pouco tempo atrás – havia falecido a “mãe dos trabalhadores”, a “líder dos descamisados”, a “protetora dos pobres”.

O clima de luto perdurou durante meses, e causou a suspensão do Carnaval de 1953 e dos dois anos posteriores.

Em 1955, após a queda do governo do viúvo de Evita, o presidente Juan Domingo Perón, com o fim do luto oficial (o novo governo execrava Perón e Evita e tentava apagar qualquer registro sobre o polêmico casal), o Carnaval recuperou-se.

Mas, no fim dos anos 1960, as fantasias foram proibidas, porque os governos militares consideravam que os guerrilheiros urbanos poderiam esconder-se sob as máscaras carnavalescas.

A guerrilha intensificou-se no início dos anos 1970. Junto com ela, os ataques de grupos clandestinos de extrema-direita. A última ditadura militar (1976-83) deu o golpe final no Carnaval: eliminou definitivamente o feriado e proibiu reuniões públicas, acabando com os blocos.

Com a volta da democracia, em 1983, o Carnaval ressuscitou lentamente. Ao mesmo tempo, ao longo dos anos 1980, milhões de turistas argentinos começaram a ir ao Brasil de férias, onde – ao ver o exuberante Carnaval do Rio e Salvador – recuperaram o sabor pelas festividades.

Assim, em meados dos anos 1980 surgiram as murgas (blocos) em diversos bairros de Buenos Aires. Os integrantes das murgas dançam ao som do candombe, um ritmo de origem africana (remanescente dos tempos em que havia escravos em Buenos Aires) com intensos requebros.

Nos anos 1980 existiam somente 15 murgas. Mas na virada do século XXI o número havia subido para mais de 100, compostos por dez mil “murgueros”. Em 2010 existiam mais de 200 murgas.

As murgas concentram-se nos bairros de classe média baixa. Os bailes possuem pequenas dimensões em Buenos Aires, comparado com o Brasil, já que participam poucas centenas de pessoas.

Para aumentar a participação, a prefeitura de Buenos Aires projeta recuperar o carnaval de salão, esquecido há décadas, além de outras festividades populares.

Murga em Buenos Aires

Os carnavalescos só podiam protagonizar os festejos de Momo nos fins de semana, devido à inexistência do feriado de Carnaval. No entanto, no final de 2010, a presidente Cristina Kirchner decretou a reinstauração do feriado. O anúncio foi realizado na Casa Rosada, enquanto diversas murgas embalavam o discurso ao som da marcha “Los muchachos peronistas” em ritmo carnavalesco.

O Carnaval tem toques próprios em diferentes localidades. Muito antes de o Mercosul integrar as economias do Brasil e da Argentina, os habitantes da cidade de Gualeguaychú, na província de Entre Ríos, importaram a festa brasileira.

Desde os anos 1960, os foliões argentinos dessa região vestem-se com as plumas e lantejoulas típicas das festividades de Momo no Brasil e desfilam em carros alegóricos.

Os próprios entre-rianos admitem que, embora não haja mestres-salas nem porta-bandeira, e sequer a música seja o samba, o Carnaval de Gualeguaychú é uma espécie de “irmão caçula” do Carnaval carioca.

Mas também contra-argumentam, defendendo seu “plágio” adaptado: “aqui ao lado, no Rio Grande do Sul, os gaúchos copiaram nosso costume de beber chimarrão, além da música com a sanfona”.

O Carnaval de Gualeguaychú tornou-se um furor nacional desde o final dos anos 1990, e é assistido por políticos e atores. As comparsas (as “escolas” locais) aproveitaram o sucesso para convidar estrelas da TV, modelos ou cantores para destacar-se. Há um lugar para o desfile, inspirado no sambódromo, que denomina-se corsódromo, em alusão a corso, denominação argentina para o desfile ou parada de Carnaval.

Nas últimas décadas, a febre do Carnaval inspirado no brasileiro se espalhou pelas pequenas cidades da região: Santa Elena, Concepción, Chajarí e Gualeguay. A preparação das fantasias e dos enredos leva todo o ano.

O lado físico também conta: para estar com os corpos malhados, florescem as academias de ginástica, que são escassas no resto do país, mesmo em Buenos Aires (comparado com o imenso volume de academias existentes em São Paulo ou no Rio de Janeiro).

No norte da Argentina também se comemora o Carnaval, mas com tons indígenas: na região da Puna, na fronteira com a Bolívia, o centro da festa é o “Pujillay”, isto é, o “diabo carnavalesco”, personagem da mitologia local, derivada dos incas.

Sepultado desde o final do Carnaval do ano anterior, o diabo é desenterrado, dando início às festas, com músicas indígenas e coloridos desfiles pelos vilarejos da região. Nessas festas, os participantes mascam folhas de coca e ingerem bebidas feitas com essa planta.

O texto acima é parte integrante do livro Os Argentinos, do escritor e correspondente da Globo News em Buenos Aires, Ariel Palácios.

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