Grande área aumentada, jogo suspenso e travessão quebrado: o delirante desfecho do acesso argentino

Travessão que não suportou o peso da camisa que voltava à elite, marcações de campo malandramente alteradas e até jogo que não acabou e que, para delírio da AFA, terá seus últimos CINCO minutos jogados com portões fechados.

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A primeira divisão argentina já acabou faz tempo, com o Boca Juniors campeão, mas as categorias inferiores viveram seus momentos decisivos no último final de semana. E, mesmo para o ascenso argentino, sempre inflamável, para o bem e para o mal, que geralmente apresenta o que há de mais puro e mais demente no futebol, foi uma jornada repleta de exageros. Travessão que não suportou o peso da camisa que voltava à elite, marcações de campo malandramente alteradas e até jogo que não acabou e que, para delírio da AFA, terá seus últimos CINCO minutos jogados com portões fechados.

O jogo sem apito final

Na decisão da B Metropolitana, terceira divisão argentina, o Riestra recebia o Comunicaciones e vencia por 2 a 0, o que lhe garantia a classificação para a Segundona. Os visitantes pressionavam, tentando o golito alentador que levaria a contenda para os penais (pois haviam vencido por 1 a 0 na primeira partida) até que, faltando cinco minutos para terminar, uma invasão de campo por parte de torcedores e AGREGADOS dos locais interrompeu o jogo, logo suspenso pelo juiz. Pouco depois, imagens flagraram que o estopim da invasão foi um jogador do próprio Riestra, não relacionado para o jogo, que entrou em campo e agrediu os jogadores do CARTERO, como candidamente é apelidado o Comunicacones, clube de Buenos Aires fundado em 1931 por funcionários dos correios.

Os jogadores do Riestra comemoraram a vaga como se não houvesse amanhã, mesmo sem apito final, mas a história ainda não tinha acabado. Na verdade, o país inteiro tomou partido pelo Comunicaciones, pois o passado recente condena o Riestra, gerenciado pelo midiático e mais do que polêmico Victor Stinfale, advogado que tem uma trajetória marcada por situações tenebrosas, algumas que inclusive no mínimo flertam fortemente com a contravenção – recentemente foi detido por ter participado da organização de uma festa que culminou com cinco jovens mortos e também tem em seu currículo a defesa de traficantes de armas e terroristas e até suspeitas de extorsão. Em uma entrevista, chegou a dizer que defenderia até HITLER, desde que lhe pagasse um milhão de pesos.

No âmbito esportivo, Stinfale faz o que quer no Riestra, clube que gerencia desde 2012 – admirador dos treinamentos de guerra, em 2016 chegou a implementar um cronograma de treinos que começava às três e meia da madrugada. O aporte de dinheiro faz com que Los Malevos de Pompeya (referência ao bairro onde têm sede) tenham um poder econômico astronômico se comparado aos seus companheiros de Terceirona. É o único time, por exemplo, que tem a Adidas como fornecedora de material esportivo. Com frequência, a influência de seu gerente nos bastidores do poder é associada a decisões favoráveis da arbitragem, e não foi diferente durante toda esta campanha.

E o repertório de TRAMPAS vai mais longe e não se restringe aos bastidores: no jogo contra o Comunicaciones, as grandes áreas do campo foram AUMENTADAS, na tentativa de que os locais, que precisavam de gols, tivessem pênaltis assinalados a seu favor. Como mostra a simulação abaixo, o canal TN provou que houve a mudança, mas nem seria necessário: durante o próprio jogo dava para comprovar a malandragem pela distância quilométrica da linha da área em relação à marca do pênalti. E, contra si, o Riestra ainda tem um histórico de invasões de campo para interromper jogos decisivos: em 2013, paralisou o embate quando vencia por 2 a 0 e subia para a quarta divisão, mas quando a partida foi reiniciada acabou castigado de forma maravilhosa por um gol redentor do brioso Ituzaingó. Um ano depois, no entanto, se deu bem quando interrompeu a partida que vencia por 3 a 2 contra o Sportivo Barracas, ascendendo de divisão sem apito final. O mantra do Riestra é: se estamos na frente, o jogo não chega ao fim.

Houve comoção na defesa de que o Comunicaciones deveria ganhar a vaga, o que é corroborado pelo próprio regulamento, ao afirmar que o clube que provocar confusão para interromper o jogo e disso tirar vantagem deve perder pontos ou ser excluído – como a loucura foi iniciada por um JOGADOR, não resta muita dúvida em relação a isso. Os jogadores do Comunicaciones inclusive aceitaram retomar o jogo, mas desde o início. A AFA, no entanto, prefere sempre os caminhos tortos e não raro flerta com o surrealismo, então ontem ignorou suas próprias regras e decidiu que um novo encontro vai aconteceu nesta quinta-feira, dia 3 de agosto, em campo neutro e sem torcida, para que as equipes jogassem os CINCO minutos que faltaram. Nenhum gol foi marcado, o resultado prevaleceu e o Riestra sobe para a B argentina. 

Também foi decidido que o Riestra começará o próximo campeonato tendo VINTE pontos descontados. Ou seja, em uma mesma medida, praticamente asseverou o acesso de um time tramposo e também sua queda imediata na temporada seguinte. Um luxo do nonsense.

Duas camisas de peso retornam à elite

A decisão da B Nacional, segunda categoria do futebol argentino, não teve presepadas, mas proporcionou um desfecho igualmente trepidante. O Chacarita recebeu o Argentinos Juniors (já campeão) e garantiu o acesso com um empate, já que o Guillermo Brown, clube da província de Chubut, precisava vencer para forçar um confronto direto, mas não saiu do zero com o Los Andes. Assim, o clube da região da Patagônia desperdiçou a chance de pela primeira vez na história jogar a primeira divisão e viu o tradicional Chaca retornar à elite após sete anos.

Enfrentando graves problemas financeiros, o Chacarita começou a frequentar a zona de classificação apenas há seis rodadas (das 45 disputadas) e a indefinição do jogo do Brown no sul do país fez com que a loucura fosse desatada aos poucos na cancha. Quando tudo se definiu e a festa enfim tomou contornos reais, uma quantidade temerária de jogadores e ASSEMELHADOS resolveu subir no travessão, que não resistiu e rachou ao meio. A trave caiu, mas o Chaca ascendia de novo à Primeira.

Clube fundado no bairro da Villa Crespo, o Chacarita muito cedo na história mudou-se para a Grande Buenos Aires devido a um perrengue extremo de cunho geográfico-imobiliário com o Atlanta, seu rival de toda a vida. Manda seus jogos no partido de San Martín, em um estádio recentemente remodelado que recebeu 20 mil hinchas para ver a equipe subir novamente. Assíduo frequentador da elite, o Chacarita traz no seu currículo o título Metropolitano de 1969 e aparece entre os vinte clubes que mais conquistaram pontos na Primeira – apenas a partir dos anos 1980, começou um agoniante vai e vem nas divisões inferiores.

O campeão Argentinos Juniors, treinado por ninguém menos que o ex-zagueiro Gabriel Heinze, apontado como técnico promissor da nova geração, jogou um futebol muito distante de seus concorrentes na Segundona e faz algumas semanas já havia garantido o acesso. Tradicional participante da elite, o Bicho Coloradocampeão da América em 1985, que se gaba de ser o semillero del mundo (por ter revelado em suas categorias de base nomes como Maradona, Riquelme, Redondo, Cambiasso e Sorín, entre outros) retorna à elite uma temporada depois de cair. Se por um lado, o campeonato nacional fica cada vez mais restrito à região metropolitana de Buenos Aires (pois entre os que caíram, Quilmes e Sarmiento são da província de Buenos Aires; o Aldosivi, de Mar del Plata; e o Atlético Rafaela, da província de Santa Fe), também é verdade que duas camisas tradicionais vão brilhar sob os holofotes da elite na próxima temporada.

Texto gentilmente cedido por Douglas Ceconello e originalmente postado no blog Meia Encarnada.