Ola brasileña? A Verdade Sobre Estudar Medicina na Argentina

Reportagem destaca a existência de uma suposta "ola brasileña" (onda brasileira) de estudantes que chegam em solo argentino em busca do sonhado diploma de medicina

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Semana passada o Clarín, jornal de maior tiragem na Argentina, publicou uma grande matéria sobre o recorde histórico de estudantes estrangeiros matriculados nas universidades do país.

De acordo com a matéria, o número é tão expressivo que às vezes algumas salas de aula chegam a ser preenchidas somente por não argentinos.

A reportagem destacou ainda a existência de uma suposta “ola brasileña” (onda brasileira) de estudantes de medicina que chegam em solo argentino em busca do sonhado diploma e experiências a mais, como vivência em outro país e o aprendizado de um novo idioma.

Os motivos que levam a essa alta procura por parte dos estrangeiros é o fato do ensino superior na Argentina ser gratuito e universal, acessível a todos, independentemente de nacionalidade.

Além disso, a UBA – Universidade de Buenos Aires, universidade foco de quase todos os que vão estudar na Argentina, é uma das mais prestigiadas da América Latina.

Prédio da Faculdade de Medicina da UBA, em Buenos Aires

Segundo os registros, o ranking de estudantes estrangeiros na UBA é liderado pelos brasileiros, cuja quantidade é quase a metade do número total. Destacaram ainda que entre os brasileiros, 60% estão no país para estudar medicina.

A grande repercussão da reportagem levou muitos brasileiros a questionarem os efeitos nocivos gerados por ela. Os principais pontos levantados foram: a possibilidade de se criar um movimento xenófobo contra os estudantes, a inflação dos preços de imóveis próximos às faculdades e também o possível início de cobrança de taxas exclusivas para estrangeiros que estudam ali.

Dados Distorcidos

Grande parte da polêmica gerada foi entorno de um depoimento de uma aluna que afirma na reportagem: “O que gasto em um mês estudando medicina em uma universidade particular no Brasil, na Argentina posso viver todo o ano”.

Muitos brasileiros reagiram dizendo que essa relação de valores estava totalmente distorcida, como de fato é. A Argentina de hoje não é o mesmo país barato como anos atrás.

Se considerarmos que a mensalidade média de um curso de medicina particular no Brasil está entorno de R$6000, tal valor seria muito abaixo do custo anual de vida em Buenos Aires por exemplo.

Hoje, R$1,00 vale cerca de AR$5,30.

Com base nesse valor calculemos:

A média do preço do aluguel em um apartamento compartilhado ou um monoambiente (kitnet) nas cercanias da universidade sai (quando barato) AR$ 9000. Outro ítem que também pesa no orçamento é a alimentação, um dos principais vilões da inflação no país que este ano tem uma previsão de fechar em 25%.

Adicionemos a essa conta: livros, cópias, transporte, plano de saúde, celular, digamos que em média uma pessoa gastará AR$ 15000 pesos mensalmente vivendo em Buenos Aires. O valor que foi publicado no Diário Clarín, usando como referência os cálculos acima, seriam suficientes para apenas dois meses de subsistência.

Outro fator relevante é que muitos brasileiros escolhem a rede particular de ensino, estudando em universidades como a Barceló, por exemplo. Estimam que cerca de 60% dos alunos que cursam medicina na instituição são provenientes do Brasil.

Por outro lado, nas redes sociais muitos brasileiros, e até argentinos, defendem a permanência de estrangeiros dizendo que eles não estão roubando vagas dos argentinos, mas sim colaborando com a economia, pagando impostos, trazendo dinheiro de fora e gastando na Argentina com alimentação, roupas, impostos e etc.

O que causa surpresa a muitos, é que a Argentina é um país que sempre foi aberto a imigração, e que no início do século passado cerca de 30% das pessoas que viviam no país eram estrangeiros.

Dados estatísticos de um monitor no escritório do Departamento de Migraciones.

De acordo com o Censo Argentino de 2010, 41mil brasileiros vivem na Argentina.

Obs.: A matéria original do Diário Clarín foi editada e não exibe mais o depoimento da aluna brasileira sobre os custos de estudar na Argentina.